A Ponta do Iceberg

Por Antonio Martos, CEO na Micromar.

Ouvi certa vez que os Japoneses consideravam que era relativamente fácil fabricar um carro, entretanto o mais difícil era dar o nome a ele! Como vocês sabem, os departamentos de marketing das montadoras gastam muito tempo e dinheiro para achar o nome certo para o produto e, em parte, o êxito de vendas depende do nome dado a ele.

Usando esta analogia gostaria de dizer que é relativamente fácil fabricar um equipamento médico no Brasil, mas o difícil é atender às exigências regulamentárias e obter o registro do produto.

Quando fundei a Micromar 30 anos atrás, não existia ANVISA, nem a ISO, nem companhias certificadoras, nem marca CE, nem FDA, nem muitas normas a serem seguidas. Não existia nem computador e ainda menos a internet. Brinco às vezes dizendo que “eu era feliz e não sabia”.

Quando algum médico Neurocirurgião recebe treinamento na Micromar, faço questão de mostrar as instalações fabris e também os Departamentos de Engenharia, Regulatórios e de Qualidade. Abro algumas das inúmeras pastas de controle de registros e rastreabilidade dos produtos, mostro os gráficos de desempenho dos fornecedores, não conformidades da produção, etc. Comento com eles que muitos desses documentos tem que ser guardados durante a vida útil declarada do produto (no nosso caso 5 e 10 anos!). Quando eles, surpresos, dizem que nem imaginavam tal fato, respondo: pois é doutor, ao observar o produto final você está vendo somente a ponta do iceberg.

Nas escolas de administração e universidades técnicas ensinava-se no passado que a empresa ideal ou que funcionava bem era aquela que tinha como estimativa 30% de pessoal improdutivo (administração) e 70% produtivo (produção). Hoje, na empresa onde trabalho, a porcentagem é exatamente inversa: 70% de pessoal improdutivo e 30% de pessoal produtivo. Claro que seria muito injusto dizer que departamentos como Criação, P&D, Engenharia de Produto, Desenvolvimento de software, etc., são departamentos improdutivos, antes pelo contrário!

Os avanços tecnológicos melhoraram a produtividade e hoje em dia é necessário menos gente para produzir mais. Um veículo popular demora um dia para ficar pronto. São três grandes processos com aproximadamente oito horas de duração cada um: estruturação, pintura e montagem. Para produzir no passado um carro com a quantidade de componentes e controles que existem hoje, seguramente o tempo de produção se quadruplicaria.

Temos hoje máquinas de usinagem CNC, robôs para montar produtos, máquinas sofisticadas de controle, lasers para diversas finalidades, impressão 3D em termoplásticos e metais, etc.

O que faz com que o produto final seja a ponta do iceberg? O que dizer dos 75% que ficam submersos, que não são visíveis? Poderíamos denominar esse percentual como “VALOR AGREGADO” ao produto. Ninguém o vê (ou poucos veem) mas ele existe e é expressivo!

Pensamos que, com todas as exigências agora impostas, os produtos utilizados na área médica devem ser de excelente qualidade. Dizemos até que tais exigências ajudam a separar o “joio do trigo,” mas infelizmente isto não é bem assim. Muitas exigências regulatórias tornam o sistema engessado e burocrático e existem muitas firmas que possuem as Boas Práticas de Fabricação e o registro da ANVISA mas fabricam produtos de péssima ou duvidosa qualidade!

Independentemente dessas exceções, hoje os produtos médicos são mais seguros, mais confiáveis e apresentam melhor performance. Isso, porém, tem um custo!

ENTRAVES

Por que é um desafio tão grande ser empreendedor no Brasil?

Porque significa encarar uma luta diária contra dois principais obstáculos: a incompetência e a burocracia do sistema imposto pelo governo.

Como exemplo menciono que, para abrir uma firma, demora-se 3 dias no Canadá, 5 no Chile, 7 no Peru e uma média de 90 no Brasil. Nem é preciso dizer que para fechar uma empresa no nosso país pode-se demorar anos!

Por outro lado, temos que considerar o peso dos encargos trabalhistas e tributários associados a cada produto.

O tempo de registro no Brasil hoje pode levar de 6 a 9 meses e ainda exige o cumprimento de inúmeras e penosas etapas. Além disso, outro entrave significativo é o alto custo das certificações e auditorias periódicas obrigatórias.

Tive o conhecimento impactante de empresas que, em decorrência da demora na publicação do registro de produtos ou da Declaração de Boas Práticas de Fabricação no Diário Oficial da União, foram forçadas a diminuir drasticamente o quadro de funcionários por não poderem manter suas atividades normais. Os prejuízos causados envolvem não somente a impossibilidade de participar de licitações como também a própria comercialização dos produtos fabricados, danos estes que podem conduzir ao encerramento das suas atividades.

Em nossa experiência particular, o tempo de demora, desde a elaboração do projeto até a obtenção do registro, pode atingir até cinco anos (dependendo da complexidade do produto). Nem é preciso ressaltar o elevado custo que isso representa para a empresa, em especial quando o projeto não tem o suporte de um financiamento.

Vale a pena tanto “sofrimento”? Vale a pena continuar?

Ainda que muitos continuem enxergando somente a ponta do iceberg e apesar de todas as dificuldades descritas e enfrentadas, como empreendedor continuo movido pelo sonho de oferecer ao consumidor final uma melhor qualidade de vida.


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