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COVID-19 e os Impactos na Neurocirurgia

A ideia desta entrevista realizada em 10 de Junho surgiu do momento COVID-19, extremamente impactante e crítico nos mais diversos setores, mas principalmente no ramo da saúde. Atingiu em cadeia médicos e todos os demais profissionais, inclusive empresas/ indústrias do ramo.

O Dr. Marcos Maldaun gentilmente aceitou nosso convite de participar da live sobre COVID-19 e os Impactos na Neurocirurgia pelas redes sociais e, devido ao conteúdo rico em informação e troca de experiências, trouxemos em forma de texto para facilitar aqueles que não conseguiram assistir o vídeo.

Assista ao video

Quais são os principais impactos na neurocirurgia, na sua opinião, com relação à Covid na neurocirurgia e, aproveitando esse gancho, como o Sr. trabalha tanto em hospitais públicos como particulares, quais são as diferenças dos impactos também nessas duas frentes?

Marcos Maldaun: Sem dúvida nenhuma a gente vive agora uma nova situação, um novo mundo. Ninguém poderia imaginar que estaríamos com o mundo de ponta-cabeça, nossas vidas totalmente modificadas tanto no ponto de vista familiar, quanto do ponto de vista profissional. Dificuldades, adaptações a uma nova Era, de entendimento dessa doença terrível que mudou paradigmas sociais e médicos.
Sem dúvida nenhuma, a saúde é a área mais afetada. Creio que a maioria dos colegas trabalham tanto na clínica pública quanto na privada, e já podemos diferenciar em algumas fases inicialmente:
Houve uma fase de contenção muito grande, ou seja, todos hospitais se fecharam. Profissionais de Saúde se organizaram a dar assistência aos necessitados da doença Covid e das síndromes gripais. Em contrapartida os demais profissionais tiveram ( assim como a maioria da população) que se resguardar e iniciar um novo processo de entendimento da doença e de reorganização profissional.
A gente nota que na esfera do SUS, teremos muitos problemas com a neurocirurgia. Muitos hospitais que já prestavam o serviço,estavam em seu limiar de assistência, ou seja, supersaturados quanto a lista de cirurgias, vagas de UTI, fluxo de sala operatória… Etc.
Eles se voltaram totalmente para a assistência desses pacientes com Covid. Portanto, estes pacientes ficaram sem nenhum tipo de assistência neurocirúrgica. Infelizmente, as patologias da neurocirurgia continuam acontecendo (os aneurismas, os tumores, as doenças de coluna) e assim por diante. Esses pacientes de certa forma tem hoje muita dificuldade em serem acolhidos.
Essa primeira fase foi bem difícil.

Agora no segundo momento após o entendimento maior da doença, entendimento da distribuição de vagas dentro desses hospitais, a gente tem notado uma certa abertura (muito diferente do que era antes), com muitas limitações no tocante a cirurgias eletivas em neurocirurgia – infelizmente cirurgias eletivas são poucas, a maioria das cirurgias são em caráter de urgência e algumas em emergência, ou seja, o paciente realmente tem um tumor agressivo/ maligno, causando sintomas ao déficit neurológico (um aneurisma que rompeu, uma hérnia de disco ou uma dor incapacitante de uma patologia mais comum), e esses pacientes precisam ser tratados. Mas os hospitais conseguiram de uma certa forma, redirecionar os seus fluxos, eles estão retomando novamente.
Só que isso criou um certo gargalo, já havia uma lista defasada no SUS, e agora esses pacientes infelizmente se acumularam ou de certa forma, essa lista não teve continuidade no tratamento desses pacientes… O fluxo de assistência para eles sem dúvida nenhuma foi prejudicado. Tem uma questão financeira também importante, a maioria desses hospitais tiveram muitas redistribuições de caixa (vamos dizer assim) e um fluxo pré estabelecido aí direcionou compra de insumos e de materiais como por exemplo respiradores, mudanças de enfermaria. Todo esse processo de gestão e administrativo está sendo feito no SUS da melhor forma possível mas sem dúvida nenhuma a gente vai vivenciar ou já estamos vivenciando problemas graves, porque os pacientes continuam com a sua patologia e de certa forma, devido toda essa situação causada pelo Covid-19, com dificuldade para esses pacientes serem acolhidos da melhor forma possível.

Já na clínica privada, isso teve um impacto inicial também da mesma forma, na redistribuição de vagas, de leitos, até o entendimento melhor da doença. Porém os hospitais ,de certa forma, restabeleceram o seu fluxo, ou seja, criaram mecanismos de parte desse Hospital (como eles mesmos chamam) ou seja “livres de Covid ou Covid free”. Mantém um centro cirúrgico com profissionais que atuam nessa área das síndromes gripais que são isolados, os métodos de imagem também separados, ou seja, uma esterilização e cuidado com a higienização hospitalar muito grande e isso de certa forma, propicia uma retomada das atividades profissionais mais rápida do que no SUS.
Ainda temos muita dificuldade, ainda temos muito medo dos pacientes (que é natural) , o paciente “nossa mas eu vou para o hospital, será que eu vou pegar o Covid, como que está o contágio, vou ser contaminado?” Mas… Os hospitais já estabeleceram um fluxo seguro, os pacientes são testados na entrada, limitações de visitas de familiares e, familiares que ficam juntos muitas vezes são testados também, a equipe está em constante monitoramento clínico para que qualquer indivíduo tanto da equipe de enfermagem, fisioterapia ou médico sejam liberados para retomar suas atividades da melhor forma possível.

A sua resposta veio muito de encontro com minha próxima pergunta inclusive, porque fora a parte da estrutura do sistema de saúde, existe o lado do paciente. Por se tratar ainda de um agente infeccioso desconhecido, sem uma vacina pra prevenir, sem medicação pra curar, a forma mais eficiente hoje para se frear o contágio é o isolamento social. Por essa razão os pacientes estão deixando de ir aos consultórios, estão deixando de fazer os exames de diagnóstico e consequentemente não estão sendo diagnosticados. Um estudo da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica estima que 90 mil pessoas hoje no Brasil, estejam com algum tipo de câncer e não foram diagnosticadas, por não estarem buscando ajuda, receosas de ir até hospital/ médico.
O Sr. tem vivido isso na sua rotina, a procura está sendo muito menor? E a segunda pergunta é como Sr. imagina o impacto disso para neurocirurgia no pós pandemia?
Os pacientes vão chegar em estados mais graves, talvez com menos oportunidade cirúrgica, por estarem mais graves?

Marcos Maldaun: Você colocou muito bem, eu acho que toda a medicina moderna foi baseada no decorrer de muitas décadas. Então quando a gente fala em oncologia, descobriu- se que deveria ser feita a prevenção, com exame anual, com visita ao mastologista, ginecologista, com mamografia e o câncer de próstata da mesma forma (só pra citar os exemplos mais comuns).
A área da Neuro, da mesma forma com todas as patologias, a nossa formação acadêmica mostra que existe um fluxo assistencial para esse paciente, um exemplo que eu posso citar no meu meio de “expertise” é o tumor cerebral, que a gente avaliou num consenso de “experts” que esse paciente deve fazer uma ressonância de controle a cada três meses e não está sendo feito (esse paciente no caso mais agressivo). Menos agressivos de 4 a 6 meses… E tudo isso vai atrasar. Então houve uma mudança significativa na prevenção, no manuseio das doenças, na condução dos casos. De uma forma pré-estabelecida deveria ter sido seguido o cotidiano da medicina, ou seja, todos os protocolos assistenciais de imagem, de visitas médicas, realização de exames clínicos e laboratoriais e de protocolos de tratamento. Ou seja, o paciente faz radioterapia e quimioterapia da forma que este paciente vai ser assistido pela equipe multidisciplinar. Ou seja ”vai aqui primeiro”, “depois vai no outro colega”, tudo isso foi quebrado. Tudo isso não existe mais. Então, de alguma forma, os hospitais e as equipes estão se ajustando dentro desse novo processo usando novas plataformas, usando os novos recursos que permitem que esse paciente continue sendo acolhido. O que é o fundamental!
Como eu já disse, infelizmente as pessoas continuam adoecendo ou continuam com a sua doença que necessita de assistência, nós teremos uma nova Era, estamos vivenciando uma Era agora, de entendimento e adaptação ao Covid. Estávamos em isolamento, agora vamos começar uma fase de distanciamento social e uso de máscaras. Ou seja, as pessoas vão passar a sair mais. Mesmo assim isso vai mudar todo fluxo e todos esses paradigmas médicos e essa adaptação vai acabar sendo feita, infelizmente, muitos em estágios mais avançados, podendo perder o “timing” para uma cura de uma doença, de um câncer de mama precocemente tratado, que poderia ser curado. Com um diagnóstico mais tardio, muitas vezes infelizmente isso não é possível, já numa doença metastática, com a doença em franca progressão, vai trazer muitas dificuldades para os pacientes. Mas eu acredito que uma vez nessa fase de distanciamento (que deve começar em breve e em algumas cidades já começou) novos protocolos, novos fluxos de adaptação, nas diversas especialidades, trarão uma nova fase a medicina, uma medicina moderna.

Interessante é que de certa forma, talvez os hospitais e as clínicas se adaptem a fazer fluxos mais simples para um paciente do SUS, por exemplo, como protocolo de radioterapia mais curto, levar menos ao hospital, de pacientes que necessitam de deslocamento (isso é um problema muito grave) para nós que estamos na área da saúde, que estamos em grandes centros, grandes cidades e capitais, que recebem pacientes de fora, de avião ou de rodoviárias… Pacientes que têm muita dificuldade no transporte. Então dessa forma, tudo isso deve sofrer algum tipo de modificação, para que os pacientes recebam a melhor assistência possível.

A pandemia traria oportunidades de melhoria na rotina desses pacientes. E eu imagino Dr., até seguindo essas informações, que o médico orientar os pacientes também seja fundamental para aqueles que já estão em tratamento. Por exemplo, deixam de seguir o tratamento por esse receio de ir ao hospital, porque pacientes oncológicos são de alto risco para Covid. Creio que neste grupo a taxa de letalidade seja próxima a 30%. Portanto expor um paciente oncológico é sempre muito complicado numa condição dessas, certo?

Marcos Maldaun: É, sem dúvida nenhuma… E você mencionou um outro lado importante. Eu acho que a medicina em si, como um todo, vai se modificar e vai usar mais plataformas como essa “live” que a gente está fazendo agora.
Infelizmente em especialidade como a minha, todo o nosso treinamento, nosso conhecimento técnico e assistencial ele é baseado numa  semiologia, envolve uma anamnese, ou seja, conversar com o paciente, examinar o paciente, ter esse critério de olhar para o seu paciente, ter esse contato de sentir a força, ver o campo visual ou o simples olhar… O paciente está na sua frente e você ter essa “visão de angústia”- “médico/paciente” e trazer o problema ou solução dele, se está melhor, se está bem… Tudo isso é fundamental.
E agora a gente está numa nova situação, na situação de telemedicina, novas ferramentas e novas plataformas na qual todo esse conhecimento de décadas que foi criado na medicina, talvez tenha que ser adaptado a isso.
Confesso que a telemedicina não é novidade, mas a pandemia fez com que fosse aprovada. Existia um curso de telemedicina, os convênios já disponibilizam dessa plataforma em alguns hospitais… Tem o seu lado bom e tem o seu lado ruim. Mas vai necessitar sem dúvida nenhuma, de uma adaptação importante no contexto de assistência e de relação médico-paciente. Porque o contato, o olhar e o dia a dia ele é importante, é fundamental.

Então no caso do diagnóstico do tumor frente a covid sempre deve-se priorizar o tumor ? Ou existem situações que podem ser analisadas?

Marcos Maldaun: Nessa fase atual que a gente vive, confesso pra você que no início da pandemia, quando ela chegou e o número de mortes infelizmente foi aumentando, cria-se essa tendência natural do isolamento que é importante e foi importante em algumas regiões/cidades. Mas a partir do momento que o paciente tem uma doença grave, ele precisa de assistência. E o tumor sem dúvida nenhuma é uma doença grave.
O paciente necessita fazer o seu diagnóstico e necessita receber o seu tratamento. Por isso que felizmente, os hospitais tanto alguns do SUS como os hospitais privados, eles estão direcionando seus fluxos, estão criando as suas alas “Covid free”, fizeram um redirecionamento e um planejamento de gestão
muito importante, para que essa crise na saúde não traga uma crise de saúde para os pacientes. A crise na saúde restrita a planos de saúde, hospital, diminuição de consultas, de exames, de cirurgias principalmente, de tratamentos oncológicos e radioterápicos e etc… Isso de certa forma, os hospitais felizmente se organizaram com uma estratégia de gestão muito importante estão abrindo suas portas novamente para que esse paciente de forma segura, seja assistido das suas doenças graves.

Importante essa informação e tranquilizadora ao mesmo tempo. Essa organização sendo feita pra poder atender esses “dois mundos”- do Covid e do dia a dia.
Dr. por ser um vírus muito recente, tem muita coisa em andamento ainda com relação aos estudos, a cada dia surge algo novo, e já há evidências que ela tem uma atração por células neurológicas. Quais são os principais estudos hoje, em andamento com relação a Covid na neuro? Com relação inclusive às sequelas, por exemplo, já se fala de AVC e de algumas coisas relacionadas a Parkinson…

Marcos Maldaun: A pandemia é muito precoce, o que a gente tem observado é que as manifestações neurológicas ficam muito aquém das outras manifestações principalmente cardio-pulmonares. É uma doença predominantemente de acometimento pulmonar e, decorrente da infecção, acaba alterando a coagulação, alterando consequentemente outros órgãos. Em virtude disso, você tem o seu pulmão não funcionando bem, você tem alguns distúrbios de coagulação e acometimento neurológico secundário: os AVCs, tanto isquêmicos quanto hemorrágicos, existem algumas descrições de encefalites por Covid (que é raro) como todo vírus pode causar um processo infeccioso no cérebro (mas felizmente isso também é raro), não tem se visto isso frequentemente na clínica privada. Mas as outras doenças neurológicas são um grande ponto de interrogação, o quanto que a doença/ vírus Covid pode acelerar algum processo degenerativo como a doença parkinsoniana, distúrbios de movimento ou doenças demenciais como Alzheimer, então… É uma incógnita! Óbvio que envolve também outras situações como o nosso confinamento em que você faz menos exercícios, pode se alimentar mal, deixa de tratar as suas outras patologias de base como diabetes, hipertensão e todo o seu seguimento clínico de forma adequada, isso também agrava muitas das doenças neurológicas que nós conhecemos. Então esse processo a médio prazo, é uma grande incógnita. Mas sem dúvida nenhuma teremos resultados infelizmente (talvez) negativos do impacto do vírus nas patologias neurológicas, além de toda parte assistencial que nós temos dificuldades, médio ou até mesmo a longo prazo, a gente vai ter um entendimento melhor do vírus, entre as doenças neurológicas mais comuns e graves como as doenças degenerativas por exemplo.

E a rotina da SNOLA com relação à questão da Covid, tem sido feito alguma coisa em específico pelo momento que a gente está vivendo?

Marcos Maldaun: Aí a gente entra numa outra esfera. A gente discutiu um pouco da parte assistencial, desse novo fluxo, dessa nova vida daqui pra frente… Dos hospitais se reabrindo e se adaptando também a crise financeira que eles vivem infelizmente, não existem recursos, caiu muito a demanda de cirurgias eletivas, ou seja, uma nova adaptação que todos terão que fazer para retomar as suas atividades cotidianas assistenciais da melhor forma possível.
No ponto de vista acadêmico a gente vai ter uma nova fase também, sem dúvidas! Nós que trabalhamos no ramo como formadores de opinião para pós-graduandos, alunos, residentes.. A gente tinha uma média de 1 até 2 eventos ou congressos por semana.
Isso tudo envolve uma estrutura muito grande do ponto de vista da sociedade e dos colegas médicos de: viagens, rotina cotidiana, ajuste de agenda e etc.
Todos os congressos praticamente foram cancelados. Cito o exemplo do maior congresso oncológico do mundo que é a ASCO, que levava 40 mil oncologistas para Chicago, fora os familiares e afins ou seja, toda uma indústria de turismo, indústria farmacêutica, provedora, trazendo novos produtos novas inovações aquela ansiedade de novos medicamentos e novas estratégias tecnológicas que possam trazer melhores resultados para o nosso paciente… Foi feito por Webinar, então por exemplo, essas plataformas de reuniões, meetings e congressos, de certa forma, vieram para ficar.

Já existia antes mas tinha uma baixa adesão por conta desse contexto que eu mencionei. Mas sem dúvida nenhuma traz pelo menos o conhecimento, ele pode ser difundido em uma nova missão… Não tem o contato social que os congressos traziam, de você conversar com as pessoas, dividir suas experiências, mas na parte de conhecimento, ele é bem divulgado.

Gostaria de parabenizar a SBN e seu corpo técnico, e o presidente por estar fazendo vários Webinars para nós da neurocirurgia isso é importante e sem dúvida nenhuma ajuda muito nas suas várias sub-especialidades, mas as outras sociedades também estão utilizando dessa ferramenta. Então a SNOLA vai fazer os webinars quinzenais, trazendo as novidades da neuro-oncologia. Vamos ter em breve os avanços divulgados na ASCO online, ou seja tudo referente a neuro-oncologia vai ser abordado nos próximos webinars e infelizmente o nosso congresso foi cancelado.
Se a gente for ver o Congresso Americano de Neurocirurgia, da Associação Americana, da Sociedade Americana, da Sociedade Brasileira de neurocirurgia… E a SNOLA que, pela primeira vez, a gente ia sair do Brasil e levar esse evento para um país latino-americano que não o nosso, e acabamos cancelando talvez com uma perspectiva do ano que vem de retomar esses eventos presenciais.
Eu acho que ainda são importantes talvez com um número menor, o número de eventos e essa plataforma digital veio para ficar, mas sem dúvida nenhuma teremos uma nova era do ponto de vista acadêmico.
Se a gente pensar em treinamento, são quatro meses já que residentes não estão operando, ou seja, estão deixando de aprender, estão deixando de ver seus pacientes no seu curto espaço de tempo, isso pode trazer algum prejuízo futuro e a gente não sabe mais quanto tempo isso seguirá… As escolas médicas da mesma forma agora são todas online, a gente sabe que a beira do leito, o aprendizado com várias pessoas ao redor paciente, era fundamental… Não sei como isso pode ser feito hoje em dia, os grupos entenderem a semiologia e anamnese desse paciente do exame clínico, então tudo isso vai ter que ser readaptado, teremos uma nova medicina.

A medicina brasileira sempre foi muito boa no tocante a pessoas, o médico brasileiro bem informado no hospital, ele tem o seu “Highlight” nas suas diversas especialidades e boa parte por conta dessa formação médica bem estruturada que a maioria das universidades ou grande parte das universidades provêm… Então eu acho que sem dúvida nenhuma teremos uma nova Era no academicismo, em todas as suas esferas societárias, formação de “fellows”, pós-graduação, residentes e alunos de medicina e vamos ver como isso vai trazer bons profissionais no futuro. Creio que esse é o segredo de quem trabalha com formadores de opinião, de pessoas que buscam uma especialização: a gente espera que essa pessoa leve para o seu micro-ambiente, para o seu nicho, para os seus pacientes na sua determinada região, “expertise”. Como essa “expertise” vai ser trazida hoje em dia nessa nova situação acadêmica é um grande ponto de interrogação.
Espero que talvez e, quem sabe, melhor até do que era antes. Mas sem dúvida nenhuma todas essas ferramentas (inclusive a nossa primeira Live) vem sendo utilizadas positivamente como uma nova oportunidade de disseminação de conhecimento e aprendizado.

Tudo tem sido aprimorado de maneira online. Estes webinars tem tido bastante adesão?

Marcos Maldaun: Exato. Eu já tinha participado de alguns antes, e cito algum exemplo prático dos webinars da SBN que sempre envolvem oncologia e dava para 70/80 pessoas… Agora participei de um de quase 1000 pessoas, alguns de 400/500… Também as pessoas estão confinadas nos seus aposentos, não estão trabalhando em determinados horários… Enfim, uma série de fatores que influenciam nesse aspecto.

O bacana vai ser encontrar um meio termo pra tudo isso né? Utilizar essas ferramentas que estão chegando para ajudar, tanto para os pacientes com a telemedicina quanto os webinars, os congressos que não atrapalham tanto e acaba não implicando tanto na rotina dos médicos na agenda, mas deixando sempre algumas oportunidades e pessoalidade. Acho que o melhor vai ser encontrar esse meio termo né?

Marcos Maldaun: Sem dúvidas, você colocou bem. A palavra é “meio termo”, é equilíbrio. Acho que dessa forma de congressos semanais, congressos de toda sub-especialidades, especialidades, em todos os lugares e toda semana, não vai ter mais. Acredito que vai existir esse equilíbrio entre a plataforma digital e a plataforma física, porque a plataforma física eu ainda acredito que é fundamental, a gente precisa ver o novo lançamento, a gente precisa saber aquilo que está no “up to date” da medicina, a gente precisa do contato social, a gente precisa de certa forma conversar com nossos pares, dividir experiências e assim por diante. E talvez ainda essa plataforma digital não seja a forma mais adequada no momento. Ela é importante, ela trouxe muito alento, levou conhecimento até pessoas que não poderiam ir em eventos “ ah não consigo, eu trabalho muito”… Mas a pessoa pode acessar essas plataformas, então tem o lado bom também…
E as sociedades vão ter que se adaptar, porque o congresso em si é uma fonte de renda importante para que as sociedades existam e se mantenham. Há as dificuldades, você tem um produto novo que você quer lançar ou quer comprar ou trazer/importar, quer mostrar isso para os médicos… o que não é a mesma coisa que receber um e-mail desse produto, ou assistir à aula/ seminário deste produto, como o workshop que você vai prover dentro do congresso físico/ presencial.
Então, esse equilíbrio deve existir, porque vem trazendo as novidades no meio médico, principalmente na área de oncologia, a gente está sempre à procura do melhor, para que os nossos pacientes vivam bem e mais a cada dia.

Então o Sr. já me respondeu que de alguma forma essa pandemia vai fazer com que a gente entre numa nova Era da medicina né? Muito provavelmente com muitas coisas novas por vir.

Marcos Maldaun: Eu não tenho a menor dúvida, eu acho que a gente ainda está entendendo essa pandemia, entendendo o comportamento do vírus, vamos entender o reflexo a médio prazo de tudo que ele causou, na estrutura de saúde, de hospitais, clínicas, médicos, pacientes, indústrias, planos de saúde… E acho que no futuro “x” que a gente infelizmente não tem como prever, vai ser escrito uma nova história da medicina, no tocante de ensino, de aprendizado e mesmo de assistência, os protocolos devem mudar, encurtar tempo de tratamento, cito um exemplo, a telemedicina é um exemplo. Ela estava numa discussão muito grande com os órgãos regulatórios, com o próprio Conselho Federal de Medicina, muita gente contra. A partir do momento que teve uma situação como essa de isolamento, a telemedicina veio como uma ferramenta útil, não era só para ensino mas veio como uma ferramenta útil assistencial. Óbvio que não é a mesma coisa de você examinar seu paciente como eu falei antes.
De certa forma vai ser uma plataforma usada, vamos levar isso para o universo do SUS. Imagina um paciente simples, que necessita de um especialista na Prefeitura de uma cidade há 100 quilômetros, para que esse paciente vá receber o seu tratamento, a sua quimioterapia endovenosa. Por incrível que pareça, as operadoras de saúde no SUS a quimioterapia oral ainda não é aceita, mas tudo indica que já vai ser liberada para que a pessoa receba em casa, ou seja, trouxe de certa forma, avanços para que o acolhimento do paciente continue da forma mais adequada possível para essa nova situação pós-pandemia que vamos viver.

Que legal Dr., que bacana!! Eu vi inclusive essa semana, uma apostila que foi o Dr. Fernando Maluf que desenvolveu, falando exatamente sobre “como agir num momento desses” para facilitar algumas condutas…

Marcos Maldaun: Acho que os nossos pares radio-oncologistas da mesma forma, tentar encurtar o tratamento da radioterapia ou seja, esse distanciamento que a gente vai viver que eu acho que é a próxima fase do isolamento, também vai chegar na medicina. E a forma como a gente provê qualidade dentro do distanciamento é talvez ver algumas alternativas seguras e eficazes de tratamento para que o paciente fique menos tempo internado, menos exposto, uma circulação menor que ele tem dificuldade em vôo, em transporte e assim por diante. Que ele possa fazer talvez na sua própria cidade, ou seja,a excelência de um grande centro, ir para uma cidade menor… A gente não sabe.
Infelizmente têm doenças que precisam de cirurgia, que precisam talvez de radioterapia, e precisam ir para um lugar provedor desse tipo de assistência e de excelência, e que de certa forma esses fluxos também dentro do hospital vão preconizar esse maior distanciamento, ou seja, uma alta mais precoce para o paciente, um esquema de tratamento que ele fique menos tempo internado e que ele já vai direto para o centro cirúrgico, o fluxo de entrada e saída do paciente com menos tempo de espera é mais interessante minimizando o tempo em UTI e etc.… Então eu acho que esse vai ser o pós pandemia da medicina. Um novo equilíbrio, novos paradigmas e protocolos.

Como um legado né? Tudo isso vai trazer um legado para melhorias também, às vezes só enxergamos o lado negativo, e que bom saber que existe uma perspectiva positiva disso tudo. O Sr. quer fazer alguma consideração final para a gente poder encerrar a nossa Live…

Marcos Maldaun: Eu acho que nesse tempo atual que todos fiquem bem, com saúde. Que se cuidem, que cuidem dos seus familiares, dos seus entes, para quem é da área de saúde, vocês da indústria e nós médicos também continuemos com saúde para prover saúde para os nossos pacientes. A gente entender uma nova fase, agora a fase do distanciamento. Distanciamento significa que o paciente precisa ser acolhido de novo, as patologias são graves, é necessário que volte para o seu médico, para o seu tratamento da forma mais segura possível. Existe um processo de gestão hospitalar, gestão de plano de saúde, todos trabalhando em prol de algo positivo para que a saúde siga adiante. Todas as doenças, todas as patologias tem o seu tratamento e logo essa tragédia que estamos vivendo – e ninguém podia imaginar uma situação como essa – vai passar, e vamos enxergar o lado bom disso. Vamos talvez ter uma nova fase na medicina moderna, mais familiar, um acolhimento diferente com o distanciamento um pouco maior, com o academicismo e o ensino diferente, muito ensino à distância mas sem dúvida nenhuma eu acho que no final disso tudo a história será reescrita para melhor.
Infelizmente a gente tem que passar por esse “furacão” na área da saúde, essa tragédia que acomete várias pessoas e vidas, não só da parte de saúde mas também financeira, econômica, política e etc. .
Mas eu acredito que todos aqueles que estão lutando bastante para organizar esse novo momento que a gente está vivenciando na esfera da saúde, e vamos conseguir chegar na melhor escolha e no melhor tratamento para os nossos pacientes.

Obrigada Dr. por trazer pra gente o que há de mais valioso neste momento: conhecimento e troca de experiência!

*Entrevista realizada pela gerente de Marketing Micromar, Renata Serpejante.
** Conteúdo com pequenas alterações/ adaptações da versão original, para maior entendimento e objetividade dos temas abordados.

 

 


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